segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ortónimo em música



«Eu ainda me lembro do Mundo
A partir dos olhos duma criança.
Lentamente, essas sensações
Foram enubladas pelo que sei agora.

Aonde? Aonde foi o meu coração parar?
Um negócio desigual pelo mundo real.
Oh, eu! Eu quero voltar a
Acreditar em tudo e não saber nada ao certo.

Eu ainda me lembro do Sol
Sempre quente na minha cama.
De alguma forma, parece mais fria agora.

Aonde? Aonde foi o meu coração parar?
Preso nos olhos de um estranho.
Oh, eu! Eu quero voltar a
Acreditar em tudo!

Iesu, Rex admirabilis
Et triumphator nobilis,
Dulcedo ineffabilis,
Totus desiderabilis.


 Eu ainda me lembro.»

Campo da Inocência, Evanescence, in Origin.



Camomiles.... by ~mechtaniya on deviantART

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ortónimo: Nostalgia da Infância


·         O sujeito poético é infeliz e sente-se inadaptado no presente em que vive;

·         Tem saudades de uma infância ideal e feliz;

·         Refugia-se nas memórias dessa infância.

Fernando Pessoa com cerca de um ano de idade
                                       
·     Ao refugiar-se no passado, Pessoa sente-se cada vez mais inadaptado no presente, o que o leva a refugiar-se novamente no passado, nesse tempo perdido onde conseguiu ser feliz. 

Ex:
«Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
"O menino de sua mãe".


Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

(...)

longe, em casa, há a prece:
"Que volte cedo, e bem!"
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.» - O menino de sua mãe (v3/5, est3; est4; est6)

A terceira estrofe pretende mostrar que as memórias do passado nos prendem no presente. Quando a mãe insiste em chamá-lo de seu menino, está a prendê-lo na infância, como se não tivesse crescido.

A quarta estrofe mostra-nos como o soldado vivia o presente carregando os símbolos do passado: a cigarreira. Foi este passado que o impediu de viver no presente, originando a sua "morte".
Por fim, a sexta estrofe, mostra a forma como o passado e o presente são inconciliáveis: aquele que está morto e apodrece no presente, continua vivo no passado.

·   Sempre que aparece um rio na poesia de Fernando Pessoa, esse representa o caminho da vida. A passagem do rio representa a passagem da vida no presente. Se esta for muito lenta, é porque o "rio" (o presente) está preso (ao passado). Se for rápida, é porque tem pressa em avançar (o sujeito poético está ansioso com o futuro).


Ex:
“Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam
– verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.” – 4ª Estrofe do poema Andaime



a nostalgia da infância

sábado, 14 de janeiro de 2012

Ortónimo: fragmentação, autodesconhecimento e dor de pensar


           A dor de pensar é o segundo tema abordado em Pessoa ortónimo.
     
          O sujeito poético submete-se a uma análise psicológica, chegando a diversas conclusões.
         A primeira é que se sente fragmentado e diverso, não se sentindo uma pessoa só. Esta fragmentação é resultado da passagem do tempo, que o impede de permanecer sempre o mesmo, porque aquilo que foi no passado já não é no presente e no futuro será diferente também. O sujeito poético está, assim, em constante mutação. Esta mutação também é resultado da influência que os outros têm sobre si, condicionando as suas vontades. Diverso e móbil, o sujeito poético sente-se inadaptado.


Ex:
“Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,

Não sei sentir-me onde estou.” – 2ª Estrofe do poema Não sei quantas almas tenho



·    Pessoa sabe que é impossível ser consciente e inconsciente simultaneamente, porque estes estados se opõem. Conscientemente, pensa-se; inconscientemente, sente-se e vive-se -- e é aqui que o seu sofrimento começa: por não conseguir parar de pensar, não consegue sentir e, por isso, não consegue realizar os seus desejos e vive frustrado.

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O pensamento é insaciável, porque quem pensa quer sempre saber mais e, por isso, nunca se satisfaz. Pensar é inútil, porque inibe a felicidade e impede de chegar a quaisquer conclusões.


Ex:

"Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura." - v5/8, est1, Liberdade



·    Por isso, gostava de não pensar, mas ao mesmo tempo queria saber que não estava a pensar.

Ex:
“Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência
E a consciência disso!
” – 5ª quadra do poema Ela canta, pobre ceifeira



 
 
Nesta quadra, o sujeito poético faz um apelo à ceifeira, para que consiga ter a sua inconsciência e ao mesmo tempo ter consciência disso.

·    É referido também a dor que resulta da distância imensa entre o que se quer – ou seja, o Tudo – e o que se realiza – ou seja Nada. Os seus projetos nunca se realizam por completo porque o que ele quer atingir é  infinito e o que é consegue atingir é nada. O que surge desta situação é um enorme sentimento de frustração.

Ex:
“Tudo que faço ou medito
Fica sempre na metade
Querendo, quero o infinito
Fazendo, nada é verdade” – 1ª quadra do poema Tudo que faço ou medito



·     Ao pensar o sujeito poético apercebe-se de que a vida é curta e que mais cedo ou mais tarde irá acabar, então decide que não vale a pena viver e, por isso, deseja a morte.

Ex:
“Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!” – 6ª estrofe do poema Ela canta, pobre ceifeira






O sujeito poético, no ortónimo, sente-se, assim, condenado a pensar e acha que isso é mau, porque pensar impede-o de ser ele próprio, o que o impede de se autoconhecer.



Poemas sobre a dor de pensar: Não sei quantas almas tenho; Tudo que faço ou medito; Ela canta, pobre ceifeira; Gato que brincas na rua; Leve, breve, suave; Liberdade; Mar. Manhã.


a fragmentação e o autodesconhecimento




a dor de pensar (sentir/pensar, inconsciência/consciência)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Ortónimo: o Fingimento Poético



·    Relativamente a este tema os poemas escritos foram os seguintes:
           • Autopsicografia
           • Isto
 
·   Quando o poeta escreve um poema, não deve escrevê-lo quando está a sentir a emoção, mas sim quando se lembra dela. Deste modo, o poeta precisa de usar a razão e racionaliza a emoção, logo, o poema transforma-se num produto intelectual.

    Ex: 
    “E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.” – 3ª Quadra do poema Autopsicografia


        A criação dum poema baseia-se na relação entre o coração (Sentir) e a razão (Pensar). Assim, o coração transforma-se num comboio de corda que fornece emoções ao poeta, para que este mais tarde consiga escrever o poema. Por outro lado, a razão irá condicionar o movimento do comboio, disciplinando-o e mantendo-o nas calhas da roda, ou seja, é quando o poeta se recorda das emoções e as intelectualiza, dando origem à obra final.

·   Fernando Pessoa diz que todos os bons poetas são fingidores e que esse fingimento tem que ser total, ao ponto de existir confusão entre a realidade e o fingimento (perca total de consciência);

Ex:
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.” – 1ª Quadra do poema “Autopsicografia”


·   É importante referir que existem 3 tipos de dor:
A dor que o sujeito poético experimentou (dor sentida);
A dor imaginada pelo poeta quando escreve o poema (dor fingida);
- A dor que o leitor sente quando lê o poema, que é o único que sente verdadeiramente.

Ex:
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.” – 2ª Quadra do poema Autopsicografia


·     Através dos versos abaixo apresentados, retirados do poema Isto, fica bem clara a fuga às sensações. Pessoa recusa sentir (para melhor fingir e ser um melhor poeta) e remete-o para o leitor.

“Sentir? Sinta quem lê!” – Verso 15
“Eu simplesmente sinto
 Com a imaginação.
 Não uso o coração.” – Versos 3 a 5


     Desta forma,  o produto final é resultado da imaginação e da criatividade, o que faz do poeta um artista original -- e não apenas mais um poeta. A realidade é apenas o ponto de partida para a escrita poética.


Through the Looking Glass by *Sugarock99 on deviantART




a teoria do fingimento poético

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fernando Pessoa: Ortónimo

dream by =uildrim on deviantART


Fernando Pessoa, enquanto ortónimo, escreveu acerca de três temas.




Curiosity by *Sugarock99 on deviantART
  1.  O fingimento poético

     «Um ator não precisa de ter matado uma Desdémona para interpretar com verdade o papel de Otelo. Sobretudo nenhum ator necessita de experimentar ciúme real quando encarna um papel de ciumento. Pelo contrário, é de toda a conveniência que o não cegue, nesse momento, nenhuma espécie de paixão. Para entrar na pele da célebre personagem de Shakespeare tem o ator vantagem em não sentir o ciúme que mostra estar sentido.»
João Gaspar Simões, Heteropsicografia de Fernando Pessoa








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       2. A dor de pensar


     «Nuvens... Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstrata e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também. Nuvens... Que desassossego se sinto, que desconforto se penso, que inutilidade se quero!»
Fernando Pessoa -  Bernardo Soares, O Livro do Desassossego










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3. A nostalgia da infância


«Conseguiria eu reconhecê-lo fora da morte
Ou dormindo? Não sou capaz de recordar o som das canas
A rasparem, ou o chocalho dos beija-flor roucos dos
Pensamentos. Os meus pensamentos. Tudo significado, poeira.»

Sarah, Dream